Karina Buhr no Recife

Cantora celebra o auge com show vibrante em Recife

Entrevista: Into The Void

Em entrevista ao Metropolis Music, os americanos do Into The Void falam sobre seu novo álbum, a cena Metal da região, o processo de criação de seus clipes e muito mais

Pérola perdida

Funk, Prog e Jazz com os africanos do Demon Fuzz

Band of Skulls

"Sweet Sour apresenta o trio ainda mais flexível, partindo de canções puramente densas à composições com toda a sutileza do folk."

Leonard Cohen

"As velhas ideias deste senhor ainda são muito superiores à várias novas sensações do cenário musical."

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Imprensa Musical



Por Gabriel Albuquerque

A imprensa musical existe há pelo menos cinco décadas, e com todo esse tempo de vida, já se tornou algo tão natural quanto a própria música. A crítica e a imprensa cultural atual moderna têm como função básica separar o joio do trigo em meio ao turbilhão de informações vomitadas pela internet. E, claro, manter de pé compromisso com a imparcialidade, prevista em qualquer texto jornalístico. Coisa que qualquer ser humano pensante sabe – e talvez por isso não seja obrigatório o diploma para jornalistas.

 Especificamente no meio musical, essa segunda parte do contrato não costuma ser respeitada, o que causa uma grande lacuna vazia no jornalismo musical nacional e internacional, que vive uma crise de mediocridade. Para começar, a imprensa se divide em dois: uma metade que idolatra o passado e despreza o novo quando este não tem nenhuma referência com um som antigo; e uma metade que supervaloriza qualquer hype passageiro estourado na internet e aclamado previamente pela imprensa gringa. Esses tipos são encontrados, respectivamente, no mundo do heavy metal e a na turma indie/ alternativa.

Aí já está iniciada uma grande problemática: ao especializar-se em determinado gênero da produção musical, outro gênero, igualmente rico e produtivo, é automaticamente relegado ao abismo frio do descaso. E exemplos não faltam para ilustrar ambos os lados.

Na turma do metal temos: Roadie Crew, Rock Brigade, Metal Hammer. E entre os indies: Pitchfork, Noize, NME, Q, Mojo e até falecida Bizz, que ostenta até hoje o posto de melhor publicação sobre música que o país já abrigou. E há ainda a chapa branca, que fica num meio termo sem graça, como é o caso das filiais nacionais da Rolling Stone e da Billboard.

E continuando, ao mesmo tempo em que se ligam a um determinado tipo de música, criam ídolos bairristas e aumentam o seu valor na primeira oportunidade, como é o caso, por exemplo, da relação amorosa do semanário New Musical Express (NME) com o Oasis e os irmãos Gallagher, que de tempos em tempos figuram na capa da publicação e no topo de alguma lista estapafúrdia; ou mais recentemente, o Stone Roses, que só este ano já esteve na capa da revista pelo menos cinco vezes.

A falta de profissionalismo é evidente em várias publicações, que parecem ainda viver no tempo das fanzines: resenhas que não dizem nada; reportagens água com açúcar que só fazem chover no molhado, entrevistas que só servem para enaltecer a personalidade do entrevistado, com perguntas que se misturam à elogios e notícias e matérias bobas para encher linguiça.

 E quem fica no meio desse fogo cruzado - uma infame e infantil briga regional de estilos musicais antagônicos (mas conciliáveis) - é o leitor: o personagem mais prejudicado dessa história, sofrendo com uma briguinha infantil e a falta de profissionalismo. E eis que surge mais um ouvinte usual: sem informação, sem argumentos, sem ideias e com uma visão parcial da música e sua beleza.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Do clássico ao pop


Por Gabriel Albuquerque


Crítico musical da célebre revista americana The New Yorker, Alex Ross ganhou fama de um modo bastante inusitado. Em 2007, lançou O Resto é Ruido, que traça um panorama em modo cronológico a história da música erudita do século XX, descrevendo e narrando os principais movimentos surgidos no período, e o livro tornou-se best-seller e um ótimo guia para os ouvintes leigos, mas curiosos, iniciarem suas aventuras no multifacetado repertório clássico.
Na esteira do sucesso de O Resto é Ruído, Ross lançou em 2010 (com tradução e lançamento no Brasil em 2011, pela Companhia das Letras) Escuta Só, o seu segundo e bastante elogiado livro.

A história de ouvinte de Ross é, no mínimo, curiosa. Filho de pais apaixonados e colecionadores de discos de música erudita, ele passou infância e adolescência imerso no repertório clássico. Aprendeu a tocar piano (com o qual tentou levantar uma carreira musical, mas admitiu não ter o talento requisitado) e dedicou-se à estudos calorosos sobre compositores clássicos. Seu encontro com o pop só veio acontecer na faculdade, quando começou a fazer amizades roqueiras/punk e comprou uma compilação do Pere Ubu e o álbum Daydream Nation, do Sonic Youth. ''Minha fortaleza musical desmoronou'', conta.

Essa experiência, somada aos 16 anos de experiência como crítico da New Yorker (ele assumiu o posto com apenas 28 de idade) fez com que Ross lapidasse seus textos de um modo mais acessível aos ouvintes não familiarizado com os jargões eruditos. Sua formação em História também reflete em seus artigos, que misturam o ensaio, a crítica e a reportagem e com leves aulas de teoria musical. São dotados de uma linguagem jornalística límpida, clara e cheia de conexões com o popular, sendo acessível a todos, mesmo que você nunca tenha ouvido falar em Esa-Pekka Salonen.
Foi justamente essa abordagem mais direta e direcionada ao contexto histórico e a emoção da música que deram o sucesso à O Resto é Ruido e Escuta Só, uma coletânea de textos publicados na New Yorker.

Em seu segundo livro, Alex Ross sai mais de sua zona de conforto e escreve perfis apaixonados sobre artistas pop de vanguarda, como a banda inglesa Radiohead e a cantora islandesa Björk e o americano Bob Dylan, e divide um capítulo para gente como Kiki & Herb, Sonic Youth, Cecil Taylor, Frank Sinatra e Nirvana. Ao falar sobre Kurt Cobain, causa polêmica ao dizer que o pop não é o melhor meio para declarações políticas. Você pode até descordar, mas é uma questão a ser debatida.

De volta ao âmbito clássico, Ross traça biografias rápidas, mas coesas e eficientes, dos austríacos Schubert e Mozart, sendo que a música deste último recebe maior destaque do que o primeiro. Para provar que o clássico não vive apenas do passado, o autor faz uma interessante e empolgante análise da atual cena musical da China.

Entre outros momentos altos, estão o primeiro capítulo, onde Ross já se apresenta destruindo as barreiras entre o clássico e pop; um ensaio onde mostram as consequências e negativas da interferência dos avanços tecnológicos sobre a música e o curioso capítulo sobre o Esa-Pekka Salonen, onde conta não só a história do maestro da Filarmônica de Los Angeles, mas a importância dessa figura no funcionamento de uma orquestra.

Sem a intenção de soar enciclopédico ou guia definitivo e detalhado, Escuta Só pode tirar os preconceitos de qualquer um sobre a música erudita, e consequentemente, uma ótima porta de entrada para o gênero. Afinal de contas, como diria o próprio Alex Ross, música é algo que vale a pena amar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O lado negro de Jim Morrison



Por Gabriel Albuquerque

É impressionante como o tempo pode apagar os piores defeitos e transformar qualquer bufão bêbado em uma lenda inquestionável reconhecida no mundo inteiro. Um grande exemplo disso é Jim Morrison, o eterno  frontman do The Doors. Após sua morte trágica aos 27, a imagem do homem narcisista e egôcentrico foi se apagando para dar lugar à um ícone, um herói do rock e de uma geração. Mas a verdade é que Morrison não passou de um pseudo-intelectual; um drogado irreparável que fingia de poeta. E muitos ainda acreditam.

Jim Morrison e sua namorada Pamela Courson
Dificilmente lembraríamos de Morrison se não fosse pela sua morte precoce. A partir daí, tudo relacionado ao vocalista  começou a ser a romantizado. Os fãs, inconformados, criaram teorias conspiratórias, sociopsicológicas e até místicas que mantém vivo o interesse no músico e ajudam esconder a verdade suja e incômoda do incidente: um decadente; forte candidato ao ostrascismo; com 27 anos mas com aparência de 57; incontrolável viciado em heroína que morreu drogado e pelado em uma banheira de seu apartamento. Três anos mais tarde, sua namorada Pamela Courson, que apresentou a heroína à Jim, trambém foi vítima de uma overdose fatal.

No atestado de óbito, a ocupação de Morrison não é constada como músico ou compositor; mas sim, poeta. Desde então, é quase impossível não ver o nome do vocalista associado à poesia. Suas letras também começaram a ser romantizadas e fãs começaram a enaltecer composições fracas e buscar explicações mirabolantes e sem sentidos para versos também sem sentido. Basta uma análise séria e imparcial de suas letras, incluindo as incensadas ''People Are Strange'' e ''The End'', para se perceber que as suas composições mais se assemelham à poesia de quinta categoria de boteco.
Versos como ''míni-saia de hortelã, bala de chocolate / campeão do saxofone e uma menina chamada Sandy'' (em ''The Soft Parade'') e ''Olá / eu te amo / deixa eu pular no seu jogo'' (do refrão de ''Hello, I Love You'') e   são tão belos e sofisticados quanto as músicas do Molejo. ''Roadhouse Blues'' (cuja letra fala, em suas próprias palavras, sobre uma viagem à um puteiro) é tão poética e sensível quanto o Mr. Catra e Waleska Popozuda.

Morrison também é com frequentemente apontado como catalisador da Revolução Sexual Americana, com as músicas ''Touch Me'' (''Toque-Me'') e ''Light My Fire'' (''Acenda Meu Fogo''). A segunda é ainda mais aclamada pelo simples verso (''Garota, nós não podíamos estar mais chapados''), que hoje é vista como um afrontamento à sociedade da época pela palavra ''chapados''.
Mas no efervescente ano de 1967, ''chapado'' era tão ameaçador e perigoso quanto o Ursinho Pooh. Tanto  é que a música foi apresentada sem problema algum no programa familiar de televisão The Ed Sullivan Show. E para completar, nenhuma das duas canções foram compostas por Morrison, mas sim pelo guitarrista da banda, Robby Krieger.

Morrison pondo sua performance pra fora 

Mas o fã do Doors argumentará que o importante não é a música em si, mas a interpretação que o vocalista dava às músicas. De fato, Morrison era um simpático e eficaz frontman. Ainda que sua performance de palco seja exageradamente espalhafatosa (que incluía se jogar no chão e, por vezes, mostrar o pênis) ele sabia como entreter o público.
Mas isso não o torna um poeta ou uma lenda do rock. E mesmo que ele tenha uma boa voz (como se pode ouvir em ''Riders on the Storm''), a sua pose de poeta intelectual altamente pretensiosa só ajuda a afundar ainda mais o rock cafona, de mal gosto e extremamente ultrapassado do The Doors, que exerce influência mínima (ou nula) sobre a produção musical atual. O único legado palpável de Morrison está na figura do vocalista boa-pinta, que só aparece sem camisa, e cuja função principal não é cantar, mas arrancar gritos histéricos de suas fãs pré-adolescentes que gritam até por um pedaço de pizza requentada, parafraseando o crítico musical Regis Tadeu.

Além disso, Jim costumava contar histórias grandiosas de si mesmo, sempre em tom arrogante e munido de seu narcisismo deprimente. Em uma de suas histórias épicas, dizia ter sido possuído por um espiríto Shaman após ter visto um acidente automobilístico que teria matado diversos índios, que ficaram ''sangrando até a morte na auto-estrada''. Um acontecimento que, segundo ele, teria mudado o seu modo de ver o mundo e de compor, transformando num homem com sensibilidade maior que seus semelhantes. E segundo os fãs, foi responsável para criar toda a ''mística'' de suas composições.
No entanto, na biografia No One Gets Out Here Alive, sua irmã Anne Morrison revelou: ''ele adorava contar histórias e exagerá-las. Ele falou que viu um índio morto na estrada, mas não acho que isso seja verdade''. Ou seja, toda a mísitca de Morrison é baseada em uma mentira. Algo que ele mesmo inventava para se promover e ganhar destaque dos demais integrantes do Doors.
Em 1969, quando o Led Zeppelin já era potencialmente a maior banda do mundo, Jim fundou a Zeppelin Publishing. A inteção de Jim era colocar as mãos na marca Zeppelin antes do Led. Foi uma tentativa desesperada (e, felizmente, fracassada) de sabotar a banda de Robert Plant e Jimmy Page que Morrison tanto temia. Uma atitude altamente egoísta de quem não consegue se sustentar a carreira com a música e mais uma prova da personalidade mesquinha de Morrison.

Preso pela segunda vez em 1970
Nos últimos anos de sua vida, Jim entrou em um declínio. Seu vício em drogas e bebida aumentou ainda mais e os cuidados com a higiene básica eram quase inexistentes. Em seu último show com o The Doors, em dezembro de 1970, após a sua segunda prisão por atos obscenos (leia-se, mostrar o pênis para a platéia durante um show), ele mal conseguia segurar o microfone, que chegou a cair diversas vezes. Não raro, ele também chegava bêbado para às seções de estúdio.
Um ano depois, após ter concluído as gravações de L.A. Woman, seu último álbum, Morrison foi para Paris em busca de descanso - mas dizem as más linguas que o músico fora buscar um tratamento para uma espécie de ''câncer peniâno'', uma consequência de sua falta de higiene.

Foi em Paris que Jim Morrison eternizou-se. Morrer jovem foi a maior contribuição que ele poderia fazer à si próprio. Morreu drogado, caquético, sujo e pelado numa banheira. Mas entrou para o ''Clube dos 27''. E é isso que mantém vivo o interesse pela sua figura, que hoje tornou-se supervalorizada e muito maior do que realmente era. Se continuasse vivo até hoje, Jim continuaria se enterrando aos poucos, até o ponto em que fosse apagado da cultura popular.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Mixtape: Rock Progressivo Italiano



Por Rodrigo Luiz

Quando se fala em rock progressivo, muitas bandas vêm imediatamente à cabeça: Pink Floyd, Yes, King Crimson, Jethro Tull, Genesis, dentre várias outras. E essas bandas compartilham da mesma nacionalidade, a inglesa. Está certo que a Inglaterra é o país mais representativo desse gênero, mas também houve outros movimentos significativos no rock progressivo na década de 70: o Krautrock na Alemanha; o "zeuhl" na França, criado pela banda Magma; o Rock In Opposition de Henry Cow; e a cena portuguesa protagonizada por José Cid, com o disco 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, que é considerado um dos melhores discos de prog rock da história. Mas nenhuma dessas cenas pôde competir com os ingleses, seja em número ou qualidade de bandas, como o cenário italiano do rock progressivo. Posteriormente categorizado como Rock Sinfônico Italiano, o gênero começou a se desenhar no fim dos anos 60, em meio a um turbilhão de acontecimentos e um clima político bastante denso. A influência desses períodos turbulentos mudou a direção não apenas da música, mas também de muitos outros âmbitos artíticos. Os jovens desejavam uma mudança e absorveram o rock como forma de protesto; o gênero passou a ser cultuado no país e bandas como King Crimson e Genesis passaram a ser adoradas lá, algo que não acontecia nem mesmo na Inglaterra.

Le Orme
Com a maior popularidade do rock no país, consequentemente foram surgindo novas bandas. Ainda no final dos anos 60, bandas como Le Orme, I Giganti e o I Quelli - que posteriormente seria o Premiata Forneria Marconi - viviam da popularide do beat inglês (uma mistura de rock, skiffle e R&B) com relativo sucesso. No início de 1971, seria lançado Terra In Boca, do I Giganti. Abordando a máfia como tema, o disco é considerado por estudiosos o primeiro disco do rock progressivo italiano, ainda sem seus contornos tradicionais. No mesmo ano seria lançado o aclamado Concerto Grosso Nº 1, do New Trolls, o primeiro disco a adicionar a influência da música clássica barroca ao rock. Foi o disco que abriu as portas para o estilo, vendendo quase 1 milhão de cópias. Mas a explosão do prog italiano aconteceu mesmo com o disco Storia Di Un Minuto, do Premiata Forneria Marconi, que impulsionou muitas bandas locais a aderirem de vez ao estilo. A partir daí, o gênero começou a tomar caminhos diferentes e a ganhar contornos cada vez mais sinfônicos, se distanciando de vez  do prog rock tradicional. Já era o início do que viria a ser o rock progressivo italiano.

Banco Del Mutuo Soccorso
Os músicos traziam consigo uma grande influência da música feita no país. Eles cantavam em sua língua nativa e resgatavam o folclórico barroco e todo lirismo das óperas e das obras clássicas, e as imprimiam ao rock sem muita sutileza, garantindo melodias suaves e uma delicada estrutura instrumental, desenhada ao milímetro. O uso de teclados diferentes, como Hammonds, Mellotrons e Moogs, e instrumentos de sopro, principalmente a flauta, era bem comum. Eles apreciavam as melodias e os detalhes, e os trabalhavam com excelência, e não poluiam as músicas com excessos musicais ou exibicionismos técnicos. Dificilmente um instrumento tinha destaque absoluto, eles trabalhavam por momentos, mas solavam em algumas nuances isoladas. Muitos gostam de dizer que é como música clássica tocada como rock. Era algo muito peculiar, de grande riqueza musical, e sua unicidade o fez dissociar-se de todo o restante de subgêneros. Era uma missão ingrata classificar qualquer banda daquele país que não fosse com o termo "Rock Progressivo Italiano", que foi usado também para esclarecer os ardorosos fãs ingleses e americanos. Mas além dessa generalizada influência nativa, as bandas também tinham algo do prog inglês, do jazz, do blues, do psicodélico, e até mesmo dos subgêneros do prog rock supracitados, como Rock In Opposition e o Zeuhl. A presença ou ausência desses elementos variava em cada banda, e davam a elas singularidade, o que valorizava a cena e a tornava ainda mais rica e diversa.

Premiata Forneria Marconi
Mas, apesar de toda a qualidade das bandas, a quantidade delas era tão exorbitante que acabou fazendo o gênero engolir a si mesmo. Apesar do gênero ser popular no país, as bandas locais não tinham público e consequentemente não vendiam muitos discos, então eram obrigadas a encerrar suas atividades. Além do mais, os anos 70 foram os mais prolíficos para o rock em geral e era impossível comprar tudo o que você quisesse ouvir. Existem raras exceções de bandas que conseguiram lançar mais do que 3 discos, e as que conguiram esse feito são os medalhões que ainda estão na ativa e são mundialmente conhecidas, como Premiata Forneria Marconi, Banco Del Mutuo Soccorso e o Le Orme, que lançou o disco La Via Della Seta este ano. Há também bandas que lançaram apenas um disco e se tornaram clássicas, como  Semiramis e Museo Rosenbach e os seus cultuados Dedicato a Frazz e Zarathustra, e até bandas que ainda nem foram descobertas e estão "esperando" que seus discos não lançados sejam achados nos arquivos antigos das gravadoras. Tudo aconteceu de forma muito rápida e estranha demais. Mas apesar disso, ou justamente por isso, a cena italiana virou cult, ganhou um grande grupo de amantes fiéis e deixou um belo legado, que a impediu de cair na obscuridade. O país continuou gerando bandas do gênero nos anos 80 e 90, com uma sonoridade mais moderna, mas mantendo vivo o espírito dos anos 70 e o respeito aos ídolos deste gênero tão rico e bem servido de belas bandas.

Download

Tracklist:

New Trolls - Cadenza, Andante Con Moto
Concerto Grosso

Le Orme - Cemento Armato
La Collage

Premiata Forneria Marconi - Per Un Amico
Per Un Amico
Banco Del Mutuorzo Socorzo - Cento Mani, Cento Occhi
Darwin!

 Museo Rosenbach - Dell'Eterno Ritorno
 Zarathustra

 Maxophone - C'e'un Paese Al Mondo
Maxophone

 Biglietto Per L'Inferno - Confessione
Biglietto Per L'Inferno

 Alphataurus - La Mente Vola
Alphataurus

Buon Vecchio Charlie - Evviva La Contea Di Lane
Buon Vecchio Charlie

Locanda Delle Fate - Cercando Un Nuovo Confine
Forse Le Lucciole Non Si Amano Più

 L'Uovo Di Colombo - Consiglio
L'Uovo Di Colombo

 Area - L'Elefante Bianco
Crac!

 Quella Vecchia Locanda - Sogno, Risveglio e...
(Quella VEcchia Locanda)

I Giganti - Avanti
Terra In Boca

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A nova estratégia da indústria


Por Gabriel Albuquerque

Não precisa ser um grande fã de música para saber que a indústria fonográfica não vai bem dos bolsos. Com a facilidade dos downloads gratuitos oferecidos pela internet e até mesmo antes dos lançamentos oficiais, o disco físico é cada vez mais deixado de lado. Depois de várias tentativas em vão, a indústria parece ter encontrado a tática certa para continuar viva.

A Nielsen SoundScan, que computa as vendas de música nos Estados Unidos, registrou a nona queda consecutiva nas vendas de disco físico e digital. Em 2010 o faturamento caiu em 12,7%, e em 2011, 11% em relação ao ano passado. E tem mais: 4,98 milhões de álbuns foram vendidos na semana que terminou em 30 de maio, a marca mais baixa desde os anos 1970.

Recentemente as gravadoras parece ter percebido aquilo que todo mundo já sabia: quem gosta e tem condições de ter o álbum físico são os colecionadores/aficionados, e esse tipo de gente gosta de material diferenciado. Então veio a ideia: ''por que não criamos edições especiais/comemorativas de álbuns clássicos?''. As edições especiais de colecionadores já existem há um bom tempo, mas são bem diferentes das caixas megalomaníacas que são lançadas esporadicamente, que trazem vinil, DVD's, CD's, compactos, fotos inéditas, outtakes raros, versões alternativas, e qualquer coisa mais que possa se imaginar.

E não são apenas os grandes clássicos irrevogáveis do Primal Scream, Pink Floyd, The Rolling Stones, The Who, Nirvana, U2, Derek & The Dominos e Beach Boys que estão sendo reeditados. O novo (e apenas bom) álbum do Cake, Showroom Of Compassion em breve irá juntar-se a The King Of Limbs (novo do Radiohead) e The King Is Dead (aclamado álbum do Decemberists) e também ganhará sua edição deluxe.

Mas o consumidor mais atento que analisa o conteúdo dessas edições especiais, percebe que, com exceção da belíssima arte gráfica, não há nada muito além do disco simples original. Musicalmente revelevante, a luxuosa caixa de Nevermind do Nirvana, tem apenas três B-sides e uma faixa escondida do álbum de 1991. No fim das contas, os três CD's acabam sendo uma repetição do outro. E se você não é daqueles que vê todo e qualquer acorde de Kurt Cobain como genial, aquilo que era pra ser uma grande experiência sonora acaba se transformando em um ótimo remédio contra o sono.

Todo o espaço vazio é preenchido com qualquer coisa que chame a atenção do colecionador compulsivo. De vinil colorido à caixa de lata, passando por objetos completamente dispensáveis como um batom e um espelho de bolso, presentes no Manic Street Preachers Among All Records And Stuff.

Obviamente, os preços são exorbitantes, mesmo assim, não impedem o sucesso: Live At Leeds, do The Who, esgotou-se rapidamente no site americano Amazon, e a caixa com toda a discografia dos Smiths está vendendo como água na Inglaterra.

Depois de várias teorias sobre a morte do disco, a indústria fonográfica descobriu, nas edições de colecionadores, uma nova estratégia para driblar a falência. Basta ser mais criterioso para criar uma material musical mais instigante e não apenas megalomaníaco para encher linguiça.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Uma grande marca


Por Gabriel Albuquerque

Fundado por Roberto Medina, em 1985 o Rock In Rio trouxe ao Brasil os maiores nomes do rock da época, colocando a terra do samba na rota de grandes shows internacionais. O festival também marcou politicamente: naquele ano a ditadura caiu, e a área de 250 metros lotadas em shows de Ozzy Osborne e Iron Maiden simbolizaram a democracia e a liberdade de expressão.  

Vinte e seis anos da primeira edição do Rock In Rio, o festival volta ao seu país de origem depois de várias edições mal-sucedidas em Lisboa e Madrid. Entretanto, o destaque já não é mais o rock e a música tornou-se apenas um pretexto para ganhar dinheiro.

Depois dos fracassos na europa, o festival consulta as paradas e músicas mais tocadas nas rádios para formar a programação. Um golpe certeiro para atrair público e aumentar os lucros, mas que abocanha grande valor cultural e qualidade artística.

É verdade que há bons shows: Elton John e Stevie Wonder (mesmo sendo garantido que aqueles hits bregas oitentistas vão aparecer); Céu com João Donato; Milton Nascimento com Esperanza Spalding; Janelle Monaé; Red Hot Chilli Pepepers; e os indispensáveis Metallica e Motorhead. Entretanto, 220 reais é um preço exorbitante para apenas um show, e quem for, por exemplo, ver o Coldplay e quiser algo mais, só restará bandas nacionais que tocam frequentemente em todo lugar do país por um ingresso bem mais convidatido.

A pouca presença do rock - que ainda é manchado com atrocidades como Glória e Nx Zero - até poderia ser recompesada se tivesse bons nomes do pop, mas preferiram ignorar grandes artistas como Lady Gaga e Beyoncé que sempre fazem apresentações interessantes e aclamar o som bobo e infantil de Ke$ha, Katy Perry, além das letras horríveis de Cláudia Leitte.

Enquanto na gringa acontece um grande festival em quase todo mês, o Brasil, apesar das melhorias, ainda é carente nesse quesito. Assim, com a grande atenção da mídia mais centenas de patrocinadores (que vão faturaM mais de 120 milhões de reais)  que vão de chicletes, cerveja, banco e montadora de carro, a grande maioria do público, que aceita tudo que lhe é imposto, vai saudar o Rock In Rio como um dos maiores eventos musicais do país. E até já foi, mas agora o Rock In Rio é uma grande marca que não enxerga nada além do lucro. Alto valor comercial, baixíssimo valor cultural.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O que rolou no VMA 2011

Por Gabriel Albuquerque

O VMA não é tão grandioso quanto o Grammy. E nem tem prentende. Sua intenção é, como está explicíto no título, premiar os melhores vídeo clipes em determinadas categorias. Contudo, um Astronauta de Prata na carreira dá uma maior visibilidade ao artista, e um show no palco da premiação pode alavancar o músico e torná-lo conhecido ao redor do mundo. Quem não se lembra do Pearl Jam e Neil Young tocando ''Rockin´ In The Free World'' em 1993? Ou quando Eminem cercou-se de sócias para cantar ''The Real Slim Shady'' e ''The Way That I´m'' em 2000? E como esquecer de Madonna, Christina Aguilera e Britney Spears se beijando ao som de ''Like A Virgin'' em 2003?

Gaga como Joe Calderone, seu alterego masculino
A edição de 2011 do Video Music Awards, em Los Angeles, já começou com surpresa. Um homem se apresenta como Jo Calderone e fala de seu romance difícil com Lady Gaga. Até que o personagem senta-se ao piano e começa ''You and I''. Ele na verdade é Lady Gaga, que mais uma vez surpreendeu em sua apresentação. Como se não bastasse, o guitarrista do Queen Brian May subiu no palco e executou um excelente solo.

Desde o início da premiação, começaram a circular rumores de que Beyoncé estaria grávida. Até que, depois de uma excelente performance em ''Love on Top'', a musa do pop abriu o jogo e confirmou os boatos. Sim, está grávida de seu marido o rapper Jay-Z, que também se apresentou ao lado de Kanye West, com ''Otis'', mas sem o mesmo brilhantismo e empolgação de sua esposa.



Houve também os já tradicionais tributos. O primeiro homenageava Britney Spears com dançarinas com roupas de seus principais clipes, representando todas as fases de suas carreiras. Todos os efeitos de luz, a produção e a coreografia estavam em boa forma. Só deviam ter escolhido um homenageado de maior conteúdo artístico.

 

Mars elevou os tributos
 O segundo tributo foi um dos principais destaques da noite. Como já era de se esperar, para relembrar Amy Winehouse, falecida recentemente. O escolhido para tarefa foi o coxinha Bruno Mars, que acabou fazendo uma boa versão de ''Valerie''. Tudo bem simples e divertido, diferenciando-se daquelas homenagens hipócritas e dissimuladas que ocuparam a tv, jornais e internet nos últimos meses.

Mas nenhum show superou o de Adele.Acompanhada apenas de um piano, a inglesa de apenas 23 anos apresentou a sentida ''Someone Like You'' de modo intimísta e com uma interpretação do fundo da alma. Todo o público assistiu de pé e ficou em silêncio completo, só aplaudindo quando Adele parava de cantar e apenas ouvia-se o som lamentoso do piano. A cantora que lançou o aclamado 21 e concorria a três categorias, injustamente não levou nenhum prêmio pra casa. A causa está na votação, que é aberta ao público. Apesar de ter quebrado recordes dos Beatles na Inglaterra, a cantora não faz o tipo de música pop imediata, a mais consumida pelo mercado americano.



Quanto a premiação propriamente dita, tudo começou bem, com o Foo Fighters levando o caneco na categoria Rock. Era a calmaria antes da tempestade de insanidade: Nicki Minaj ganhou na categoria Hip Hop, Lady Gaga Melhor Clipe Feminino e Justin Bieber Melhor Vídeo Masculino. E teve mais:
''Firework'' de Katy Perry foi considerado melhor vídeo do ano, desbancando ''Rolling In The Deep'' de Adele, ''Get Some Noise'' dos Beastie Boys e ''Yonkers'' de Tyler, The Creator.

Nos prêmios técnicos houve maior coerência. Beastie Boys ganhou como Melhor Roteiro, Beyoncé como Coreografia, Adele levou a Melhor Direção de Arte e Fotografia e Katy Perry e Kanye West em ''E.T.'' ganharam os melhores efeitos especiais.

Isso é mais uma prova de que o grande público engole tudo que vê sem pensar duas vezes. Mesmo com a internet que oferece informação a todo instante, com toneladas de bandas interessantes e diferentes, muitos ainda se contentam com o pouco, aquilo que é transmitido na TV sem o menor controle de qualidade.

A versão brasileira, o VMB, nesse ano volta a ter um júri especialista e poucas categorias abertas a votação. Assim a premiação fará sentido, e o vencedor será aquele que merece. Enquanto isso, ainda teremos esses shows de horrores com Britney Spears levantando troféus e sendo homenageada.

domingo, 24 de julho de 2011

Amy já estava morta há tempo


Por Gabriel Albuquerque

Londres, 23 de Julho, 16:05 horas. A polícia recebe um chamado dizendo que fora encontrado um cadáver de uma mulher de 27 anos. Essa jovem era Amy Winehouse, encontrada em sua casa no bairro de Camden.
Amy era um dos maiores nomes da música pop atual. Compunha suas próprias músicas a partir das dores da vida pessoal (de amores não correspondidos a complicações com bebidas e drogas). Sua voz tinha um timbre único e suas interpretações eram profundas e carregadas de emoção. Uma das maiores cantoras dos últimos tempos. Sem dúvidas, um grande talento.

Entretanto, a inglesa veio ganhando destaque não pela sua arte, mas sim pelos excessos cada vez mais frequentes. Assim, Amy se tornou uma grande caricatura. A junkie do século XXI. E por incrível que pareça, aprovada pela sociedade. Os jornalistas acharam um assunto que sempre dava audiência para suas reuniões de pauta. Por sua vez, os fãs - não o admirador sensato que reconhece os erros e acertos do artista - cegos e emburrecidos pelo próprio fanatismo, iam aos shows sedentos para ver uma cena de bebedeira.No show que fez no Recife, no começo do ano, em um festival que contou com com outros dois nomes do neo-soul Janelle Monáe e Mayer Hawthorne, ela foi mais aplaudida quando caiu depois de uma pirueta mal-sucedida do que quando cantou seus maiores hits.
Amy vinha de um processo de decadência artística. Ela já não lançava um novo disco há mais de quatro anos. As músicas inéditas que tocaria na turnê brasileira ficaram apenas na promessa. Sua voz já tinha perdido uma boa parte de sua potência e os shows viraram verdadeiros desastres. Seu último show em Belgrado, Sérvia, ela subiu ao palco com uma hora de atraso, mal se aguentava de pé e esqueceu as letras das músicas mais vezes do que o normal - pois é, Amy esquecer as letras já é considerado normal. Resultado: o público mostrou seu senso crítico e expulsou a cantora sob vaias e culminou no cancelamento da turnê européia.
Juntamente com Joss Stone, Winehouse reanimou e deu uma nova roupagem a soul music. Lançou o ótimo Back To Black e o razoável Frank, praticamente desconhecido aqui no Brasil.De fato, uma contribuição notável ao mundo da música. A sua morte prematura agora traz falsas condolências de artistas querendo se promover, fãs acéfalos chorando, a mídia fazendo elogios exagerados e outras pessoas tristes e comovidas sem saber o porquê.
Deixemos os discursos arrependidos e lágrimas hipócritas (vai dizer que você nunca zombou da cantora que não conseguem ficar de pé e que está sempre com uma garrafa de bebida ao alcance da mão?). Vale a pena ouvir seus dois discos novamente e admirar sua música de forma consciente, sem engolir os comentários e as reportagens exageradas que a supervalorizam. O corpo Amy Winehouse morreu ontem, mas artisticamente, ela já estava morta - e todos sabiam.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Um show sem público


Por Gabriel Albuquerque

Parece um absurdo: um show em ruínas antigas e sem nenhuma audiência. Mas o que aparenta ser um grande fracasso, se tornou um grande sucesso e umas das mais marcantes imagens e performances de uma das maiores bandas da história da música.

Roger Waters se sentia cada vez mais distante do público, que ia aos shows e ficavam, segundo ele, pulando e gritando o tempo todo e não prestavam atenção na música. O baixista e principal compositor do Pink Floyd sentia-se mais angústiado e perdendo a sua identidade, o que foi capturado nos versos ''Estranhos passando na rua /Acidentalmente dois olhares se encontram / Eu sou você e o que eu vejo sou eu'', de ''Echoes''. Assim sendo, Waters teve a ideia de fazer um gravação em vídeo de um show para ninguém (com exceção de alguns membros da equipe), dando assim, foco à banda e a música, sem imagens do público.

O local escolhido pela banda foi o Anfiteatro de Pompéia, que foi destruído pela erupção do vulcão Vesúvio em 79 D.C., cuja chuva de cinzas manteve a cidade oculta por 1600 anos antes de ser reencontrada. O governo italiano concordou com o projeto e deu um prazo para a equipe fazer as gravações (segundo algumas fontes, esse prazo seria de cinco dias). Mas ninguém pensou num detalhe importante: como vão conectar os equipamentos em um lugar que foi feito há milhares de anos e não tem uma tomada? Assim, foram gastos de dois a três dias para puxar energia elétrica da cidade até o Anfiteatro.
Com todos focados apenas na música, sem a pressão de entreter grandes platéias, a musicalidade e a criatividade dos músicos desabrocha. E todos eles têm seu momento de destaque. Em ''Set The Controls For The Heart Of The Sun'', se sobressaem o vocal hipnótico de Waters e o solo de teclado de Richard Wright. Em ''Saucerful Of Secrets'' é realçada a experimentação na guitarra de David Guilmour, e em ''One Of These Days'' a performance mastodônica de Nick Mason na bateria. ''Mademoiselle Nobs'' traz um momento curioso: um cachorro ''cantando''.
Mas o principal momento é a execução da épica ''Echoes'', dividida em duas partes que abrem e encerram o vídeo. Com essa versão ao vivo em Pompéia, que mesclava imagens da banda com imagens do Anfiteatro, a sinfonia psicodélica do Pink Floyd fez sucesso no mundo todo. Mesmo com mais de vinte minutos, tocava na rádio e era exibido com frequência na MTV.
a banda tem grande liberdade de movimento e experimentação. As músicas se combinam perfeitamente com as imagens das ruínas do belíssimo teatro e criam uma ambientação única e especial. Anos mais tarde, o trio de hip hop Beastie Boys mostrou a sua admiração pelo vídeo no clipe de ''Gratitude'', com referências óbvias ao show do Pink Floyd em Pompéia, incluindo as caixas de som com a inscrição Pink Floyd London. Veja os vídeos abaixo e compare.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O dia mundial do rock


Por Gabriel Albuquerque

Nesta altura do campeonato, com toda a cobertura da grande mídia, você já deve estar sabendo que hoje, dia 13 de julho de 2011 é ''o dia mundial do rock''. Mas poucos dos entusiastas que comemoram essa data prosaica conhecem a sua origem e ''celebram'' sem aprofundamento algum.

Para chegar às origens do dia do rock, é necessário voltar no tempo. Há 26 anos, acontecia o Live Aid, um festival que ocorreria simultaneamente na Filadélfia, nos Estados Unidos e na capital inglesa Londres afim de arrecadar fundos para povos famintos da Etiópia.
O festival foi fundado pelo músico Bob Geldof. Tudo começou quando a carreira da sua banda, The Boomtown Rats, definhou em 1984. Durante aquele período, Geldof viu uma matéria na BBC sobre a fome na Etiópia e prometeu a si mesmo fazer algo para mudar aquilo.
Ele uniu forças com Midge Ure, guitarrista e vocalista da banda Ultravox, e compôs a canção ''Do They Know It´s Christmas?'' e conseguiu o apoio de grandes nomes da música pop britânica, como Paul McCartney, Boy George, James Taylor, Bono Vox, David Bowie, Phill Collins, Sting, que se reuniram sob o nome Band Aid para gravar o single beneficente. A ideia era arrecadar em torno de 70.000 libras, mas o sucesso foi muito além, vendeu milhões e se tornou o single mais vendido da história do Reino Unido. Alguns meses mais tarde, Michael Jackson, Stevie Wonder e Lionel Ritchie beberam da mesma fonte lançando o hit ''We are The World''. Geldof percebeu a influencia do seu trabalho e notou que poderia fazer mais pela sua causa. Então se juntou novamente à Ure para fundar o Live Aid.
O trabalho do promotor Harvey Goldsmith foi essencial para o sucesso do evento. Graças a sua atuação, o festival foi ganhando notoriedade enquanto mais artistas aceitavam participar, o que resultou num dos maiores casts de todos os tempos. Na inglaterra, entre os principais destaques estavam Queen, Led Zeppelin, The Who, David Bowie, U2 e Paul McCartney. No lado americano, brilharam Black Sabbath, Judas Priest, Neil Young, Eric Clapton, Santana + Pat Metheny e Joan Baez, que logo após tocar a sua primeira música, falou ao público: ''Este é o Woodstock de vocês''.


No Wembley Stadium, o público foi de 82 mil pessoas, e no John F. Kennedy Stadium 99 mil. A arrecadação estimada era de um milhão de libras, mas novamente ouve uma surpresa agradável: o valor final reunido ultrapassou as 150 mil libras. Vale destacar que o preço do ingresso era de apenas 25 libras/dólares, como é mostrado no cartaz acima a esquerda.
A imprensa elevou o festival. O jornal britânico Sunday Mirror titulou a matéria do evento com a seguinte frase em letras garrafais: ''DE OUTRO MUNDO''. O Melody Maker estampou uma foto de Bob Geldof em duas edições - uma antes e uma depois do festival -, a segunda acompanhada uma matéria especial com oito páginas que dizia que o Live Aid teria sido o ''maior show da terra'', e a Rolling Stone fez uma edição especial inteiramente dedicada ao festival (foto que abre o post).
Por todo o seu trabalho, Bob Geldof foi indicado ao prêmio Nobel da paz e foi condecorado com o título de Cavaleiro do Império Britânico, já que não podia receber o título de Sir por não ser inglês, e sim irlandês.
Do ponto de vista prático, o dia do rock tem valor apenas comercial. Mas quem descobre as origens e o motivo data, entende a magnitude e a importância do rock no mundo. E isso sim merece ser festejado. Todos os dias.

Grandes momentos do Live Aid - clique para assistir ao vídeo:
Queen - Bohemian Rhapsody
Joan Baez - Amazing Grace
U2 - Sundat Bloody Sunday
Mick Jagger e Tina Turner - State Of Shock e It´s Only Rock n´ Roll
Eric Clapton - Layla
Dire Straits e Sting - Money For Nothing

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Pré-bandas

Por Gabriel Albuquerque

As bandas costumam mudar de nome quando estão em seus primeiros meses de vida. Algumas mudam até de estilo musical e o tipo de roupas que veste. Mas alguns grupos, antes de mudar de nome ou adicionar e/ou retirar algum outro integrante, gravaram alguns discos, hoje disputados a tapa por colecionadores. Esses discos são chamados ''pré'', gravados por pré-bandas. Abaixo você vai conhecer a história desses grupos e poderá ouvir uma música de cada.


The Beatles

Na foto acima você encontrará três rostos conhecidos: John Lennon, Paul McCartney e George Harrison. Mas esse não são os Beatles, são os The Quarrymen, grupo formado em 1957 por Lennon e alguns amigos seus de escola. O pré-Beatles. Eles nunca gravaram um disco completo, mas deixaram diversos singles. Abaixo você ouve ''That´ll Be The Day'', a primeira gravada pelo quinteto (sim, quinteto) de Liverpool.


T. Rex

O T.Rex ganhou fama na década de 1970 com hits como ''Get It On (Bang a Gong)'', ''Children Of Revolution'' e ''20th Century Boy'', liderando o movimento glam rock junto com David Bowie, Gary Glitter, Roxy Music e New York Dolls. Mas uma década antes, o T.Rex era chamado de Tyrannosaurus Rex, era apenas um duo, constituído pelo carismático Marc Bolan e Steve ''Peregrine Took'', que faziam um folk psicodélico. Lançaram quatro discos, sendo o primeiro, My People Were Fair And Had Sky In Their Hair... But Now They Content To Wear Stars In Their Brows, o mais bem sucedido - e também o álbum com título mais extenso já lançado. No vídeo abaixo o duo interpreta ''Debora'', em 1968 no Kempton Park.


Creedence Clearwater Revival

Doug Clifford, Stu Cook, John Forgety e o seu irmão mais velho Tom Forgery formaram um grupo chamado The Blue Velvets para tocar músicas que faziam sucesso nas jukeboks da cidade. Em 1964, a banda assinou um contrato com o selo independente Fantasy. Para o primeiro lançamento do grupo, o vice-presidente da gravadora, Max Weiss, sugeriu um novo nome: The Golliwogs. Os rapazes aceitaram e gravaram o disco. O disco seguinte demorou oito anos para ser lançado e trouxe não só uma formação diferente (Stu deixou o piano e passou a tocar baixo, Tom foi para guitarra base e John virou o líder da banda, compondo tudo), mas também um nome diferente: Creedence Clearwater Revival.




Spooky Tooth

O Art lançou apenas um disco, Supernatural Fairy Tales em 1967 sob o selo Island. Depois adicionou o tecladista Gary Wright (que sairá em turnê este ano com Ringo Starr e sua All Starr Band) à formação e mudou seu nome para Spooky Tooth, tradicional banda de hard progressivo inglesa. O som do Art não tem nada a ver com o prog, trata-se de canções curtas e psicodélicas, mas com refrões fáceis e guitarras afiadas e esporrentas. Um power pop lisérgico.


Queen


Smile era um trio de blues rock formado por amigos de escola: Brian May, Roger Taylor e Tim Staffel. O grupo gravou seis músicas, sendo dois covers, pela gravadora Mercury Records. Em 1970, o baixista e vocalista Staffel saiu da banda e apresentou os rapazes a Farokh Bulsara, que por sua vez, passaria a ser conhecido por Freddie Mercury. Depois de várias audições para encontrar um baixista, John Deacon assumiu as quatro cordas e a banda passou a se chamar Queen. A principal composição do Smile é ''Doing All Right'', que foi regravada pelo Queen e incluída no primeiro disco da banda, com os devidos créditos à dupla que a compôs: May e Staffel.



Black Sabbath

Tudo começou quando Tony Iommi e Bill Ward, respectivamente guitarrista e baterista da banda Mythology, leram um cartaz de um vocalista, ainda sem banda, que dizia: ''Ozzy Zig requires a gig''/(''Ozzy Zig procura um show''). Iommi, que estudou na mesma escola que Ozzy, recusou formar uma banda com ele, mas depois de muita insistência do seu amigo Bill Ward, acabou aceitando. Ozzy trouxe mais dois guitarristas da Rare Breed, sua antiga banda: Gezeer Butler, que passou a ser o baixista, e Jimmy Phillips. Também foi incluído ao line up o saxofonista Alan Clarke, e a banda foi batizada pela primeira vez com o nome - sem noção - Polka Tulk Blues Band, encurtado mais tarde para Polka Tulk.
Após a saída de Jimmy Phillips e Alan Clarke, a banda passou a chamar-se Earth e começou a construir um repertório voltado para o Blues e nas suas pequenas apresentações, fazia covers de Hendrix, Blue Cheer, Cream e Beatles - esta última uma paixão de Ozzy até hoje.

O material que se encontra do Mythology é uma gravação amadora, feita por alguém da platéia no último show da banda. Já o Earth gravou um EP com cinco músicas em 1969. O nome Polka Tulk Blues Band durou apenas um mes, por isso não se encontra registro, nem de gravações amadoras, do seu som.




domingo, 3 de julho de 2011

Quando o rock encontra um mano


 Por Gabriel Albuquerque

Assim como o rock, o rap surgiu com negros que estavam à margem da sociedade. Gil Scott-Heron, auto-definido como ''um negro dedicado à expressão do prazer e orgulho da negritude'', é apontado constantemente como ''o padrinho do rap'' devido as ferozes críticas que redigia ao governo e a população através de músicas-manifesto e pela sua vocalização ''falada'', rotulada na época como spoken word, como pode ser ouvido em ''The Revolution Will Not Be Televised'', lançada em 1971 e seu principal epitáfio.
Mas a explosão do rap veio na década seguinte, quando foram lançadas duas faixas que mudaram e definiram o esilo: ''The Message'', do Grandmaster Flash, e ''Fuck Tha Police'', do N.W.A.. A primeira abre e dá nome ao disco de estréia do Grandmaster Flash, e apesar da letra pesada sobre a decadência urbana, com versos que retratam junkies, ruas sujas, armas, gangues, assasinatos e violência, foi muito bem aceita pelo público e pelas rádios, sem contar o clipe que rodava sem parar na MTV.
Já com a polêmica ''Fuck Tha Police'' foi diferente. Sete meses após o seu lançamento, o FBI mandou um boletim para Priority Records. Segundo a corporação, a música ''estimula a violência policial''. Em consequência, a MTV proibiu a veiculação do clipe de ''Straight Outta Compton'', o que aumentou as vendas do álbum e colocou o N.W.A. como os bad boys do rap.
A primeira música que fundiu o rap e o rock foi ''Rapture'', sucesso do Blondie que chegou no topo da parada norte-americana. Com pouco mais de sete minutos, Debbie Harry inovava ao ''rapear'' sob a base rítmica rock no meio da canção. Não por coincidência, ''Rapture'' foi sampleada junto com vários outros hits (entre eles ''Another One Bites To Dust'', do Queen) na faixa ''The Adventures Of Grandmaster Flash On The Wheels Of Steel'', incluída em The Message.

Mas a união dos ritmos só veio definitivamente em 1986, quando o Aerosmith se juntou ao trio Run DMC para regravar uma versão de ''Walk This Way'', lançada originalmente por Tyler e sua trupe em 1975. O sucesso estrondoso da música não só aumentou a popularidade dos rappers, como também botou o Aerosmith em foco novamente depois do fraco Done With Mirros e do pavoroso Rock In A Hard Place.

No mesmo ano, o trio Beastie Boys sacudiu o mundo do rap. Antes de tudo, eram brancos e descendentes de judeus, quebrando o paradigma de que era música de negro. Além disso, incorporavam ritmos do funk e do rock. O debut do trio, até hoje o mais conhecido do grupo, Licensed To Ill, traz uma participação especial de peso: o companheiro de selo Kerry King, guitarrista do Slayer, que faz o solo de ''No Sleep Till Brooklin'' (uma referência ao disco ao vivo do Motörhead No Sleep Till Hammersmith). O álbum chegou ao topo das paradas e vendeu em torno de 360 mil cópias, sendo o primeiro passo na popularização do rap, que a partir daí deixou de ser música de marginal para virar mainstream.
Hoje as rádios exigem ao menos um dedo de rap, o que gerou artistas medíocres que fazem apenas pontas em músicas alheias. Dessa forma, o new metal e seus principais grupos - Korn, Slipknot, Limp Bizkit, Rage Against The Machine - são os nomes mais populares da música pesada atual, agradando jovens que não se identificam com o pop radiofônico e com pouco repertório de rock. A combinação de rap com o rock ou heavy metal assim como com os outros gêneros, já virou lugar comum. Uma fórmula que está sendo repetida cada vez mais vezes e sem criativadade alguma, criando bandas gênericas como o Linkin Park, que só empobrecem a fusão e criam, para os rockeiros mais antigos, o esteriótipo de que rap e rock não funcionam juntos. O jeito agora é esperar que surja alguém e mude tudo isso.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Heróis do Udigrudi

Por Gabriel Albuquerque

O Brasil teve vários movimentos musicais que sacudiram o mundo. A bossa nova no fim década de 1950 e a tropicália nos últimos anos da década seguinte. O udigrudi surgiu no recife e conciliava o rock psicodélico e a música regional. O movimento tinha caráter de contra-cultura, uma espécie de ''pós-woodstock recifense'' e ia muito além da música, englobando também peças teatrais, o cinema, artes plásticas, literatura e artesanato.


O pioneiro dessa fusão de ritmos distintos foi Lula Cortês, que abriu as portas do udigrudi com o seu disco de estréia, Satwa, que também incursionava pela música oriental e era movido a cogumelos alucinógenos. Foi lançado em 1973 com a participação de Lailson - que ganhou fama internacional pelos seus cartuns e charges publicados nos jornais Diário de Pernambuco e O Pasquim - tocando craviola e do prodígio da guitarra Robertinho do Recife. Lailson diz que Satwa é todo instrumental porque não queria apresentar as letras à polícia federal - o que era lei na época da ditadura militar. O álbum também foi o primeiro independente nacional e não teve boa repercussão na época, um lenda underground obscurecida. A distribuição foi basicamente regional; não houve reedição em vinil e ainda permanece inédito em CD.


Cortês abriu as portas de sua casa e a transformou num recanto cultura, um verdadeiro ''QG da psicodelia'', como descreveu Zé da Flauta, um ativo participante do movimento. ''uma escola de artes aberta onde se fazia livros, discos, shows, fotografia, filmes Super 8, trabalhos gráficos e se ouvia muita música, muita!'', relembra. Com a sua casa transformada em ponto de encontro, é de se entender porque o disco seguinte, Paêbiru, o ''Tropicalia nordestino'' (uma comparação sensata, tendo em vista que reuniu grandes nomes da cena, como Geraldo Azevedo e Alceu
Valença) demorou dois anos para ser lançado. Mas também não há motivos para reclamar: Paêbiru não só apresentou o paraibano Zé Ramalho - cansado de embalar músicas iê iê iê e da jovem guarda em bailinhos de João Pessoa - ao mundo, é um dos melhores discos nacionais da história, com pedradas como ''Nas Paredes da Pedra Encantada, O Segredo Talhado Por Sumé'', a pancada lisérgica de ''Trilha de Sumé'' e ''Não Existe Molhado Igual ao Pranto'', claramente feita sob efeito de ''expansores do músculo cerebral'', como diria o grande Arnaldo Baptista.
Os quatro lados do vinil duplo homenageavam os quatro elementos da natureza. Houve apenas uma prensagem do álbum de 1.300 cópias, sendo que 1.000 foram destruídas após a enchente que abalou a capital pernambucana naquele ano e abalou o estúdio em que estavam estocados; as cópias restantes que estavam no carro de Kátia Mesel, esposa de Lula e responsável pela mística arte da bolacha. Hoje Paêbiru é o disco mais caro do Brasil, superando a estréia de Roberto Carlos em Louco Por Você. Uma cópia da primeira tiragem em bom estado pode valer até 4.000 reais.

A casa de Côrtes e sua esposa Kátia não era o único ponto de referência dos artistas do movimento. O Beco do Barato, na avenida Conde da Boa Vista, centro do Recife, abrigava reuniões da vanguarda. Zé da Flauta, Lula Cortês, Lailson e integrantes do Ave Sangria eram figurinhas carimbadas de lá. Em 2004, foi lançado o CD A Turma do Beco do Barato - Antologia 70. O projeto foi idealizado por Humberto Felipe, que explicou o porquê da realização do CD para o jornalista Marcos Toledo, do JC Online: “Toda essa história ficou meio esquecida, tanto de gente de hoje quanto de quem viveu a época e não estava antenado.” Fã do Ave Sangria, conta que a idéia sugiu como uma homenagem a banda com participações especiais. “Ao invés de ficar limitado a um nome, resolvi ampliar, não usar o nome Ave Sangria, mas pegar o mais representativo e fazer a Antologia 70”, explica.


A decisão foi sábia: das onze canções da tracklist, sete são inéditas, duas que a Phetus (que contava com Lailson e Zé da Flauta) e a Ave Sangria fizeram a cerca de 30 anos atrás mas nunca tiveram a chance de gravar. As regravações de ''Dois Navegantes'' e ''O Pirata'' por Almir e Marco Polo respectivamente, os principais compositores do Ave Sangria, e ''As Estradas'' e ''Dos Inimigos'' foram valorizadas pela ótima qualidade da gravação, constratando com o som das versões originais.


O Ave Sangria é banda mais popular do udigrudi (talvez por ter sido a única que assinou com uma grande gravadora, a Continental) e até hoje se apresenta em alguns festivais, como
aconteceu nas últimas edições do Psicodália e do Abril Pro-Rock, se apresentando ao lado dos admiradores conterrâneos da Anjo Gabriel. A Ave tinha uma postura que chocava a todos: usavam batom e se beijavam em pleno palco. Mais tarde, Rafles - uma espécie de acessor do grupo e notório doidão da época que chegou a mandar um baseado pelos correios para Paul McCartney (e recebeu em resposta uma fotografia autografada e o devido agradecimento do Beatle) - acaba com a lenda em volta da banda: ''O batom era 'Mertiolate', que a gente usava para chocar. Não sei de onde surgiu essa história de beijo na boca, a única coisa diferente na turma eram os cabelos e as roupas.''
Apesar de ter sido pouco divulgado, o primeiro e único disco homônimo do conjunto teve uma boa repercussão, principalmente no Sudeste, mas a faixa de maior sucesso, o samba-choro ''Seu Waldir'' foi censurada pela ditadura da época, que a considerou como uma ''apologia ao homossexualismo''. O álbum foi relançado sem a polêmica música, mas a mídia já tinha perdido o interesse nos rapazes. A rede Globo, por exemplo, não transmitiu o clipe de ''Georgia A Carniceira'' feito para o Fantástico. Com isso o grupo perdeu o pique: ''A gente era um bando de caras pobres, alguns já com filhos, a grana sempre curta. No aperto, chegamos até a gravar vinhetas para a TV Jornal (uma delas para o programa Jorge Chau)", relembra Marco Polo

Começaram a aparecer teorias de que o Waldir citado na música era real e o vocalista havia se apaixonado por ele. Marco esclarece tudo: "Eu fiz Seu Waldir, no Rio, antes de entrar na banda. Ela foi encomendada por Marília Pera para a trilha da peça A Vida Escrachada de Baby Stomponato, de Bráulio Pedroso, que acabou não aproveitando a música".


Outro disco que merece ser destacado é No Sub Reino dos Metazoários, do paraibano Marconi Notaro. Em ''Ah Vida Ávida'', Notaro, Cortês e Zé Ramalho fazem uma pequena obra prima, um lamento viajandão, mas o momento mais radical é ''Made In PB'', um rockão com a épica guitarra distorcida de Robertinho do Recife e efeitos de eco.

Alceu Valença e Geraldo Azevedo foram outros que simpatizaram com udigrudi: a estréia dos dois foi com o disco Quadrafônico, que denotava influência da cena em canções como ''Planetário'' e sua letra viajandona, e na dramática ''Erosão'', carregada de variações de andamento. Alceu ainda beberia mais da fonte psicodélica no disco Vivo!, de 1976.

Hoje em dia, o udigrudi é desconhecido da maioria dos brasileiros, amado por colecionadores e gringos fãs da música brasileira. Lamentável, a cena foi muito mais do que ''o hippie nordestino'' ou mais alguma reação pós woodstock, revelou artistas de renome, respeito e qualidade inquestionáveis e influênciou outras revoluções da música que surgiriam a seguir, como o manguebeat, liderado pelo memorável Chico Science na década de 1990. Mas também não ficou só na música, o udigrudi combateu a ditadura valorizando a força do pensamento e das idéias e mostrou um novo jeito de ser e de fazer.



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