Por Gabriel Albuquerque
É impressionante como o tempo pode apagar os piores defeitos e transformar qualquer bufão bêbado em uma lenda inquestionável reconhecida no mundo inteiro. Um grande exemplo disso é Jim Morrison, o eterno frontman do The Doors. Após sua morte trágica aos 27, a imagem do homem narcisista e egôcentrico foi se apagando para dar lugar à um ícone, um herói do rock e de uma geração. Mas a verdade é que Morrison não passou de um pseudo-intelectual; um drogado irreparável que fingia de poeta. E muitos ainda acreditam.
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| Jim Morrison e sua namorada Pamela Courson |
Dificilmente lembraríamos de Morrison se não fosse pela sua morte precoce. A partir daí, tudo relacionado ao vocalista começou a ser a romantizado. Os fãs, inconformados, criaram teorias conspiratórias, sociopsicológicas e até místicas que mantém vivo o interesse no músico e ajudam esconder a verdade suja e incômoda do incidente: um decadente; forte candidato ao ostrascismo; com 27 anos mas com aparência de 57; incontrolável viciado em heroína que morreu drogado e pelado em uma banheira de seu apartamento. Três anos mais tarde, sua namorada Pamela Courson, que apresentou a heroína à Jim, trambém foi vítima de uma overdose fatal.
No atestado de óbito, a ocupação de Morrison não é constada como músico ou compositor; mas sim, poeta. Desde então, é quase impossível não ver o nome do vocalista associado à poesia. Suas letras também começaram a ser romantizadas e fãs começaram a enaltecer composições fracas e buscar explicações mirabolantes e sem sentidos para versos também sem sentido. Basta uma análise séria e imparcial de suas letras, incluindo as incensadas ''People Are Strange'' e ''The End'', para se perceber que as suas composições mais se assemelham à poesia de quinta categoria de boteco.
Versos como ''míni-saia de hortelã, bala de chocolate / campeão do saxofone e uma menina chamada Sandy'' (em ''The Soft Parade'') e ''Olá / eu te amo / deixa eu pular no seu jogo'' (do refrão de ''Hello, I Love You'') e são tão belos e sofisticados quanto as músicas do Molejo. ''Roadhouse Blues'' (cuja letra fala, em suas próprias palavras, sobre uma viagem à um puteiro) é tão poética e sensível quanto o Mr. Catra e Waleska Popozuda.
Morrison também é com frequentemente apontado como catalisador da Revolução Sexual Americana, com as músicas ''Touch Me'' (''Toque-Me'') e ''Light My Fire'' (''Acenda Meu Fogo''). A segunda é ainda mais aclamada pelo simples verso (''Garota, nós não podíamos estar mais chapados''), que hoje é vista como um afrontamento à sociedade da época pela palavra ''chapados''.
Mas no efervescente ano de 1967, ''chapado'' era tão ameaçador e perigoso quanto o Ursinho Pooh. Tanto é que a música foi apresentada sem problema algum no programa familiar de televisão The Ed Sullivan Show. E para completar, nenhuma das duas canções foram compostas por Morrison, mas sim pelo guitarrista da banda, Robby Krieger.
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| Morrison pondo sua performance pra fora |
Mas o fã do Doors argumentará que o importante não é a música em si, mas a interpretação que o vocalista dava às músicas. De fato, Morrison era um simpático e eficaz frontman. Ainda que sua performance de palco seja exageradamente espalhafatosa (que incluía se jogar no chão e, por vezes, mostrar o pênis) ele sabia como entreter o público.
Mas isso não o torna um poeta ou uma lenda do rock. E mesmo que ele tenha uma boa voz (como se pode ouvir em ''Riders on the Storm''), a sua pose de poeta intelectual altamente pretensiosa só ajuda a afundar ainda mais o rock cafona, de mal gosto e extremamente ultrapassado do The Doors, que exerce influência mínima (ou nula) sobre a produção musical atual. O único legado palpável de Morrison está na figura do vocalista boa-pinta, que só aparece sem camisa, e cuja função principal não é cantar, mas arrancar gritos histéricos de suas fãs pré-adolescentes que gritam até por um pedaço de pizza requentada, parafraseando o crítico musical Regis Tadeu.
Além disso, Jim costumava contar histórias grandiosas de si mesmo, sempre em tom arrogante e munido de seu narcisismo deprimente. Em uma de suas histórias épicas, dizia ter sido possuído por um espiríto Shaman após ter visto um acidente automobilístico que teria matado diversos índios, que ficaram ''sangrando até a morte na auto-estrada''. Um acontecimento que, segundo ele, teria mudado o seu modo de ver o mundo e de compor, transformando num homem com sensibilidade maior que seus semelhantes. E segundo os fãs, foi responsável para criar toda a ''mística'' de suas composições.
No entanto, na biografia
No One Gets Out Here Alive, sua irmã Anne Morrison revelou: ''ele adorava contar histórias e exagerá-las. Ele falou que viu
um índio morto na estrada, mas não acho que isso seja verdade''. Ou seja, toda a mísitca de Morrison é baseada em uma mentira. Algo que ele mesmo inventava para se promover e ganhar destaque dos demais integrantes do Doors.
Em 1969, quando o Led Zeppelin já era potencialmente a maior banda do mundo, Jim fundou a Zeppelin Publishing. A inteção de Jim era colocar as mãos na marca Zeppelin antes do Led. Foi uma tentativa desesperada (e, felizmente, fracassada) de sabotar a banda de Robert Plant e Jimmy Page que Morrison tanto temia. Uma atitude altamente egoísta de quem não consegue se sustentar a carreira com a música e mais uma prova da personalidade mesquinha de Morrison.
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| Preso pela segunda vez em 1970 |
Nos últimos anos de sua vida, Jim entrou em um declínio. Seu vício em drogas e bebida aumentou ainda mais e os cuidados com a higiene básica eram quase inexistentes. Em seu último show com o The Doors, em dezembro de 1970, após a sua segunda prisão por atos obscenos (leia-se, mostrar o pênis para a platéia durante um show), ele mal conseguia segurar o microfone, que chegou a cair diversas vezes. Não raro, ele também chegava bêbado para às seções de estúdio.
Um ano depois, após ter concluído as gravações de
L.A. Woman, seu último álbum, Morrison foi para Paris em busca de descanso - mas dizem as más linguas que o músico fora buscar um tratamento para uma espécie de ''câncer peniâno'', uma consequência de sua falta de higiene.
Foi em Paris que Jim Morrison eternizou-se. Morrer jovem foi a maior contribuição que ele poderia fazer à si próprio. Morreu drogado, caquético, sujo e pelado numa banheira. Mas entrou para o ''Clube dos 27''. E é isso que mantém vivo o interesse pela sua figura, que hoje tornou-se supervalorizada e muito maior do que realmente era. Se continuasse vivo até hoje, Jim continuaria se enterrando aos poucos, até o ponto em que fosse apagado da cultura popular.